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CONVERSA DE REDAÇÃO Por Carlos de Paula -
Seu texto tá empolado, mano! -
Como assim? -
Parece que você sentou, e escreveu algo, assim, meio premeditado... -
E queria que eu fizesse o que? Escrevesse de pé, algo aleatório? Penso
no que escrevo e o faço sentado, bolas. -
Nao é isso que quero dizer. O seu texto não tem espontaneidade. Parece
uma monografia. Uma monotografia, pois é monótono, também. É
carregado de palavras difíceis. -
Está bem. -
Tá vendo? Até para falar você é empolado, mano. Ninguém mais fala
“está”. É tá. -
Tá bom! Tá bom... tá bom? Ou é tá bão? -
Não, tá bom, tá bom! Também não quero que você fale que nem um jeca.
Mas voltando ao assunto, falta agilidade no seu texto. Pá-pum. -
Pá-pum??!! -
Olhe essas palavras. Sinecura. Próceres. Trucidar. Prolixo... -
Sempre me disseram que o meu texto era elegante... -
Pode até ser elegante. Mas escuta, mano, você vai vestir um fraque para
ir à feira? Além do mais, era uma pequena nota sobre corrupção numa cidade
do interior do Piauí. Pega leve! -
Mas os editorialistas vivem escrevendo prolixo, sinecura... -
E quem lê os editorialistas? Só eles mesmos, meia dúzia de doidos e os
seus desafetos, para escrever os editoriais do dia seguinte. Só estão ali por
que já foram ministros, ou têm fardão. -
Será?? -
E tem mais. Onde as pessoas lêm jornal? No banheiro. No ônibus. No
banco do jardim. Você acha que alguém vai carregar um Aurélio para ficar
checando a sua empolação? -
E aquele negócio de a linguagem escrita ser mais rebuscada? -
Vai por mim. A linguagem de hoje é assim. Dinâmica. Ágil. Rápida no
gatilho. Frases de efeito. Bordões. -
...sem verbo? -
Por que não? Verbos muitas vezes atrapalham. E se você errar a conjugação
acabam te chamando de ignorante. O verbo implícito é um grande recurso. -
Ai, ai, ai. E os meus heróis da imprensa? -
Olha, esse negócio de Rui Barbosa já era. Hoje em dia o pessoal consome
as notícias como se fosse um sanduíche de mortadela. Sem maionese. Simplifique.
Ninguém quer pensar. A notícia tem que divertir. Tá vendo essa jóia que
escrevi? -
Não acredito, no obituário? -
Pois é. Até o obituário tem que ser divertido. Tudo tem que ser
fashion. Senão, mano, a internet e a TV acabam com a gente. -
Tá bom. Voi treinar um pouco. Pá-pum. Sem verbos. Frases de efeito. -
Isso. Tô vendo que você dá pro ramo. Passa aqui mais tarde pra eu ver
o resultado. Próximo!!! Ô Barbosa, cê quer acabar comigo, mano?
Nunca te ensinaram a fazer uma apuração???
Cadê o meu remédio pro coração? OUTRAS CRÔNICAS DE CARLOS DE PAULA FOCO POP: ENTREVISTA COM REGININHA PIMBÓ FOCO POP: PRONUNCIAMENTO DE PRESIDENTE CANSADO DO MST? CONHEÇA O MSMM
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