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Copyright © 2003 Carlos de PaulaJK – O NOSSO JFK
QUE
JK FOI O PRIMEIRO PRESIDENTE MODERNO DO BRASIL NÃO HÁ DÚVIDA – SÓ QUE
MODERNIDADE NEM SEMPRE SIGNIFICA ALGO BOM – HÁ MUITA COISA DE RUIM NA
MODERNIDADE. PONDERE ALGUNS PONTOS
JK
é o nosso JFK. Ou vice-e-versa. Há muita coisa em comum entre os dois,
inclusive são quase contemporâneos. Até as abreviações são parecidas.
Tão simpático quanto o JFK, mas não tão bonitão, ambos são
considerados por uma vasta porcentagem da população dos seus respectivos países
os melhores presidentes que o país teve até hoje. Curiosamente, ambos são
muito “overrated”. A história apresenta JFK como um presidente da paz, hábil
negociador que evitou uma deflagração de guerra nuclear durante o incidente de
Bay of Pigs, quando na realidade, a Guerra do Vietnã foi obra sua – embora
Johnson e Nixon paguem o pato. JK, por outro lado, é considerado um presidente
que criou um Brasil pujante, colocando-o no mapa industrial do planeta, alegando-se
que o Brasil se afundou por inépcia dos seus substitutos, especialmente os
militares. Na realidade foi o presidente que esbanjou a maior quantidade de
dinheiro do país até hoje em um projeto não produtivo. O processo de
industrialização do Brasil já havia se iniciado com a fundação da CSN e da
Belgo Mineira, nos anos 40, não com o JK. E nem mesmo a indústria automobilística
foi criada por JK. Todas as leis que propiciaram a formação de uma indústria
automobilistica com 100% de nacionalização haviam sido promulgadas durante o
segundo mandato de Getulio Vargas, e de fato, a maioria das montadoras
supostamente trazidas por JK (GM, Ford, VW, Scania Vabis, Alfa-Romeo via FNM,
Vemag, Mercedes Benz, Romi Isetta) já existia no Brasil, algumas inclusive ja
montando carros com mais de 40% de nacionalização antes de JK iniciar o seu
mandato (VW desde 52 e FNM, desde 1950, especificamente). Diversas fábricas de
autopeças já existiam antes de JK. E JK abraçou para si os louros que o
defunto GV não podia defender como seus, pois já havia se suicidado. A grande
“realização” de JK foi Brasilia – sem dúvida, um dispêndio faraônico
que iniciou o processo de dependência endêmico do Brasil na dívida externa, e
que não trouxe benefícios para a grande maioria do povo brasileiro – embora
tenha enriquecido um sem número de asseclas de JK, entre os quais o mineiro
Sebastiao Camargo (Camargo Correia) e diversos reizinhos do mercado imobiliário
brasiliense. A aventura candanga foi em grande parte financiada com dinheiro
emprestado no exterior, que não deu retorno até hoje. Brasilia foi durante
tanto tempo tão inútil, que até recentemente (pelo que me consta, fins da década
de 80) havia mais servidores públicos federais no Rio de Janeiro do que lá. O
mal de Brasilia não foi tanto o fato de ter sido construída, mas sim a pressa
com que foi concluída. Para um país sem recursos próprios como o Brasil, a
sua construção durante um mandato de um único presidente foi loucura. Seria
mais sensato coinstrui-la em 10 a 15 anos, mas ego é ego. Óbvio, JK não
queria que outro recebesse os louros da sua realização (como ele se usurpou
dos louros de GV em relação à indústria automobilística, diga-se de
passagem). O que o seu sucessor recebeu foi sim, um mico de $1,35 bilhões, empréstimos
de curtíssimo prazo que deveriam ser pagos entre 61 e 62, o equivalente às
exportações anuais do Brasil. Para piorar, a má gestão da política cambial
fez com que o nível das exportações caísse, ao invés de aumentar, apesar da
“pujança”. Aí iniciou-se a derrocada mais séria do Brasil no campo
externo, inclusive um histórico longo de relacionamento amor/ódio com o
FMI. Se JK animou o povo brasileiro com a idéia de progresso, criou no exterior
o esteriótipo de brasileiro trambiqueiro que perdura até hoje (n’est pas un
pais serieux do De Gaulle). Curiosamente, muitos que defendem com unhas e dentes
o JK, culpam os militares pela questão da dívida externa e culpam FHC de ter
sucateado o patrimônio do povo brasileiro. Situação ambígua e curiosa:
consideram patrimônio do povo um sem número de estatais criadas durante o
regime militar, assim reconhecendo o caráter de investimento com valor venal
razoável. Ou seja, os militares teriam endividado o país, sim, só que fizeram
investimentos que valeram realmente alguma coisa: criando empregos no país
inteiro, criando empresas que hoje em dia lideram as exportações brasileiras.
E o nosso querido JK? Criou o mico que é Brasilia, enriqueceu alguns compadres
seus, e nem mesmo a indústria automobilistica, que supostamente teria criado,
foi criada por ele. Não há dúvida também de que a precária situação em
que JK deixou o Brasil eventualmente levou à revolução militar, ao criar um
clima econômico de impossível administração. Por que o Jânio Quadros fi-lo
por que qui-lo? Por que não era bobo, e sabia que a batata estouraria nas
suas mãos, como realmente estourou nas mãos do Jango. Será que o JK seria um
melhor presidente em um segundo mandato? Pode ser que sim, pode ser que não. Já
tinha construído a sua obra faraônica, e é bem possível que em um segundo
mandato pudesse fazer algo de bom para o país. A verdade dói, mas tem que ser
dita. A
INDÚSTRIA AUTMOBILÍSTICA JK
gostava de dizer, e os livros de história engoliram, que foi ele que instalou a
industria automobilística brasileira. Na realidade, todas as leis que
propiciaram a suposta “instalação” da mesma (proibição de importação
de auto-peças, incentivos fiscais para montagem de fábricas, exigência de
nacionalização de veículos) foram promulgadas no segundo mandato de Getulio
Vargas de 1951 a 54. JK só deu continuidade ao que tinha sido corretamente
iniciado pelo GV, que pela lógica, deveria ter levado o mérito. Além disso, já
se montavam veículos no Brasil, na modalidade CKD (completely knocked down –
completamente desmontados). Ou seja, os carros, caminhões e onibus vinham
desmontados em caixas, e eram remontados aqui. Algumas dessas montadoras,
especificamente a VW e a FNM, já incorporavam muitos componentes nacionais nos
seus veículos CKD antes mesmo de JK tomar posse. A VW que montava o Fusca e a
Kombi desde 52, em 54 já tinha atingido 40% de nacionalização. A FNM, que
montava caminhões Alfa Romeo, já atingira 50%. Isso não só nos diz que já
se fabricava veículos no Brasil antes do JK (a fabricação de veículos é
meramente a montagem dos mesmos, com
peças procedentes de diversos fornecedores, daí serem chamados os fabricantes
de carros “montadoras”), como o fato lógico de já existirem antes de JK
fabricantes de autopeças capazes de produzir até 50% das peças de um veículo,
antes do JFK das alterosas ter iniciado seu mandato. O grande trunfo de JK teria
sido convencer os fabricantes a se instalar no Brasil, mas até isso é uma
inverdade histórica. Vejamos. Na fase inicial da indústria automobilística do
Brasil, existiam os seguintes fabricantes: VW, já estava instalada no Brasil
desde 52, e fabricava carros com 40% de nacionalização desde 1954; Ford,
presente no país desde 1919, montava veículos CKD; GM, presente no país desde
1925, montava veiculos CKD; Vemag, que na fase do Juscelino fez acordo com a DKW,
já montava, na fase pré-JK, carros da Studebaker, caminhões da Scania Vabis e
tratores Massey Ferguson; a Scania passou a montar caminhões por conta própria;
a Mercedes Benz fundou a Mercedes do Brasil em 1953, portanto antes de JK –
mas só abriu sua fábrica em 1956; Romi,
tradicional fabricante do interior de SP, fabricava a Isetta desde 1955, sob
licença; FNM, que fabricava caminhões Alfa Romeo desde 1950, e passou a
fabricar um veículo, a partir de 60, curiosamente chamado JK – era o carro
mais caro do Brasil; Toyota, montou uma pequena fábrica para montar o jipe
Bandeirantes, que fabricou durante quase 40 anos no país – só que a Toyota,
não acreditando muito no país, nem se dava ao trabalho de montar motores –
comprava-os da Mercedes Benz; Simca, fabricante francesa, começou fabricando veículos
100% CKD, eventualmente nacionalizados; Willys-Overland, fabricante americana
que saiu falida dos EUA, e trouxe todos os tornos para cá. Ou seja, de novo,
novo mesmo, JK só teria “trazido” a Simca, a Willys, a Toyota que não
acreditava no país, e a DKW. Exceto pela Toyota, as outras três eram
fabricantes em fase de desespero: a DKW tinha tecnologia de motor de 2 tempos, já
defasada e fez joint venture com a Vemag, empresa brasileira pouco capitalizada
– a própria DKW não estava muito a fim de investir no país, assim a empresa
nunca vingou; a Willys, saira falida dos EUA; a Simca, fizera a besteira de
comprar a Ford France, numa época (pós guerra) em que veículos grandes não
eram grande sucesso de venda na Europa. Ou seja, esses três fabricantes, únicos
trunfos do JK, não sobreviveram além de 67. A DKW-Vemag comprada pela VW, a
Willys pela Ford e a Simca pela Chrysler. Curiosamente, diversos dos fabricantes
que se instalaram no Brasil nos anos 90, Renault, Citroen, Peugeot, (sem contar
a Fiat, que aqui se instaliu em 76), montaram fábricas na Argentina, mas não
compraram a idéia da Detroit Jkana. Ou seja, de novo mesmo, o JK trouxe
fabricantes falidos, salvo um e os que permaneceram (GM, Ford, VW, Scania,
Mercedes) já tinham operações no país, na fase pré-JK. Essa
é a pura verdade, podem verificar.
JK
E O FMI Depois
de pedir uma montanha de dinheiro emprestado no exterior para construir a sua
Brasilia, JK, vendo que não daria para pagar os empréstimos, e procurando
acumular dividendos políticos para uma futura reeleição (que nunca oocorreu)
deu uma de machão perante os cliques das cameras e acintosamente mandou o FMI
às favas. Com isso foi o primeiro presidente brasileiro a usar a TV como meio
de promoção. O povo adorou, só faltou canonizar o JK. Por trás das portas,
JK acionou o seu Embaixador em Washington, o banqueiro mineiro Walter Moreira
Salles (futuro Unibanco) para pedir desculpas, e costurar um acordozim,
ganhar tempo e passar a bola pro coitado do seu sucessor, que acabou sendo Janio
Quadros. Este, um tanto idiossincrásico, mas de burro não tinha nada, caiu
fora antes que Brasilia explodisse e deixou a batata quentinha na mão do
caudilhesco João Goulart. Este se enamorava com a U.R.S.S., e achava que
poderia efetivar o calotaço sem grandes consequências. Sem dúdiva, uma das
grandes razões do Golpe de 64. Back to Brazilian Yellow Pages |
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