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LÍNGUA DE GATO Por
Carlos de Paula O
prédio onde morei durante a minha infância toda ficava perto de uma loja da
Kopenhagen. Tenho um carinho especial pelos produtos da empresa, e um dos que eu
mais gostava era a Língua de Gato. A caixinha era muito bonita, ilustrada com
um gato de linguinha de fora, o chocolate delicioso, e até o formato do
chocolatinho me dava prazer. Confesso que fiquei um pouco contrariado ao
descobrir, recentemente, que era uma imitação de um produto tradicional que
existia na Europa, chamado “Langue de Chat”. Jurava que era uma criação
brasileira. Ufanismos chocolateiros a parte, caí na real de que muito do
“tradicional” que existe no Brasil é imitação de algo estrangeiro. Uma das
maiores polaridades da humanidade concerne o gato e o cachorro. Os amantes dos
gatos acham os cachorros babões, barulhentos, fedidos, etc etc.. Os que
preferem cachorros julgam os gatos traiçoeiros, interesseiros, alegam que não
são carinhosos, e são sujos por que não gostam de banho d’água, etc, etc..
Como gosto de todos os animais, não entro nessa briga de paixões. Por uma série
de circunstâncias, a principal sendo a proibição de cachorros no meu prédio,
tenho gatos. E desde 1988, durante muito tempo tive dois. O mais curioso dos
gatos é a diferença de personalidade marcante de cada um. Fazem malcriações
à sua moda, e também procuram agradar o dono do seu próprio jeito. Tive um
macho e uma fêmea durante muito tempo, Mimo e Ceci. Mimo,
como diz o próprio nome, era um gato mimoso. Amigo de todo mundo, fora adotado
com três anos de idade, ou seja, já adulto. Já Ceci foi incorporada à minha
família quando filhotinha. Mimo era “gente fina” parafraseando o ex
Ministro Magri, e Ceci, um pouco antipática e neurótica. Fugia quando entrava
alguém em casa, a não ser aqueles do que seu “círculo íntimo”. Uma das
coisas que eu mais gostava de ver Mimo fazer era colocar a linguinha para fora.
Ficava com a cara muito engraçada, me fazia morrer de rir. Todo dono de bicho
é um pouco pancada, e acredita que o animal entende os seus pedidos. Como não
sou diferente, vira e mexe pedia ao Mimo para colocar a linguinha de fora, e há
muitíssimo tempo não me atendia. Mimo
estava doente desde abril de 2003. Teve uma convulsão na minha frente, e o
levamos ao veterinário. Disse que estava com um problema sério nos rins, que
era incurável. Recebendo soro nas veias o efeito do problema seria amenizado. Só
que Mimo foi ficando cada vez mais magrinho, e a agulha e o tratamento eram um
grande desconforto para ele. Começamos a espaçar o tratamento, sabendo que,
mais cedo ou mais tarde, teríamos que sacrificar Mimo. E o dia veio, um pouco
além dos seis meses de vida adicionais previstos pelo veterinário. A sua
última convulsão foi terrível. Não tive condições de olhar para ele,
enquanto se debatia descontroladamente. Depois de descansar um pouco, abrimos
uma latinha de comida, que foi devorada. Parecia ainda ter fome, e abrimos outra
lata, também consumida rapidamente. Posso estar louco, mas acho que Mimo
pressentia que era o fim. Pouco
depois, pôs a linguinha para fora. Ficou assim um tempinho, segundos que
pareceram uma eternidade de gozo para mim. Voltou ao normal, e daí a alguns
minutos tacou a linguinha para fora novamente, do modo que eu gostava. Foi sua
despedida. O
desapontamento da Língua de Gato da infância se foi com Mimo. Foi substituído
pela alegre língua de gato da despedida do seu derradeiro dia de vida. OUTRAS CRÔNICAS DE CARLOS DE PAULA FOCO POP: ENTREVISTA COM REGININHA PIMBÓ FOCO POP: PRONUNCIAMENTO DE PRESIDENTE CANSADO DO MST? CONHEÇA O MSMM
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