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MEU
TIME É O MELHOR Por Seu
Zé No
Brasil, escolhiam de quatro em quatro anos um time para representar o país no
futebol. A coisa começou a ficar bagunçada no começo dos anos 60, e o mesmo
time acabou representando o país por vinte anos. No começo, acharam um técnico
cearense sem pescoço, mas depois a coisa ficou um pouco mais sinistra,
e começaram a só escolher técnicos gaúchos. Quem sou eu, pessoa sem
estudo, para criticar as profissões dos outros, mas para mim técnicos de
futebol são técnicos, e militares, militares. Técnicos entendem de jogadas e
esquemas, militares de quartel e trabucos. Enfim. Lembro-me também de um centro
avante gordinho e de óculos, que todo mundo achava o máximo. Ele estava em
todas, e até marcava um golzinho aqui e ali. O pessoal estava entusiasmado, mas
na verdade, o time parecia ser bom por que os outros eram tão ruins e quando o
gordinho marcava, estava impedido! O gordinho não estava com essa bola toda. E
também fizeram uma lei que proibia criticar o time. Chamava ui, ai, ou coisa do
tipo. Só sei que doía. Por isso ninguém
criticava o time, nem o técnico, nem tampouco o gordinho, que reinava supremo
no ataque! Eventualmente,
apareceu um técnico alemão com cara
de brabo, e se livrou do gordinho. Venderam pro futebol francês, onde
aparentemente se deu muito bem. Pão do pobre cai com a manteiga pra baixo; do
rico, com a manteiga pra cima, e ainda chove um pouco de geléia importada. Que
fazer? Para o seu lugar, o alemão achou um excelente teórico. Onde já se viu
jogador de futebol teórico? O cara entendia muito da teoria do futebol e música
clássica, mas não se marca gols com equação, nem com árias do Paganini. No
fundo era um perna de pau. Aí a situação foi ficando cada vez mais preta, e o
nosso time ficando cada vez mais na retranca. Lá por
volta de 78/79, o alemão brabo foi substituído por um carioca, que era olheiro
do alemão. O carioca gostava muito de cavalos, mas não de pessoas. Pô, mas o
futebol é um esporte popular, de pessoas. Se não gostava de pessoas, devia
estar em outro esporte, na hípica, lá sei eu. E o engraçado é que embora
disesse que não gostava de ser técnico, alongou a sua permanência no cargo! Não
faz sentido. O povo estava já um pouco bravo com aquela situação, queria
times diferentes, estava cansado de tanta retranca e falta de gols. E o pior foi
que o carioca trouxe o gordinho de óculos de volta. O cara só dava chute fora!
Eventualmente,
resolveram que um time novo iria representar o país. O povo queria escolher o
time, mas o pessoal do time que mandava achava que ainda não era hora. Fizeram
passeata, discursos, uma dona turbinada cantava o hino nacional em tudo que é
lado. Deu muita confusão, pois um técnico turco queria continuar com o time da
situação, mas nem os do próprio time queriam ele, mas ainda assim, acabou
concorrendo contra um técnico mineiro. Este último tinha como técnico
assistente um maranhense bigodudo que havia trocado de time. Era do time que
mandou por vinte anos, e de repente passou para o time do mineiro! Da noite pro
dia! Enfim, foi escolhido o mineiro, mas não conseguiu ocupar o cargo. Morreu
antes, e o maranhense que trocou de time na última hora, acabou como técnico. Esse
usou o maior número de atacantes até hoje. Os atacantes ficavam alguns meses,
e eram despedidos. Teve um que fez furor, inventou uma jogada cruzada que
parecia que daria certo, mas os gols foram rareando de novo e voltou a retranca,
pior do que antes. Acabou dançando. Pelo menos o maranhense não chamou o
gordinho de volta, que tinha virado crítico. Só criticava todo mundo,
esquecendo que ele mesmo não marcava gols quando jogava! O único que ficou no
time o tempo todo foi um goleiro baiano... A situação
do maranhense foi piorando, até que resolveram que o povo escolheria o próximo
time. Reuniram um pessoal para escrever novas regras de futebol, e acabaram com
o maior regulamento do mundo, onde todo mundo deu palpite. Até índios entraram
na estória, nem sabia que eles jogavam futebol. Ninguém queria mais saber do
time do maranhense, nem do turco, e aí apareceu um técnico com cara de galã,
com um time que nem existia um ano antes, e um outro, do meu time, um barbudo
que parecia tudo, menos galã. O galã era das Alagoas, e o pessoal parece que não
pensou nisso. Desde quando o CSA e o CRB fizeram algo de bom no futebol? E o técnico
de Alagoas ganhou, foi escolhido. Teve o bom senso de não chamar o gordinho
para o ataque, mas acabou chamando uma mulher. Confiscaram todos os ingressos
para as partidas, dizendo que iam devolver alguns anos depois, mas o pessoal dos
camarotes continuou indo a todos os jogos. Nunca o futebol esteve tanto na
retranca. Acabou havendo um escândalo, com a dona do ataque e um zagueiro dançando
“Besame mucho”, mas isso é outra história. Não se marcava mais gols no país.
A comissão técnica inteira era das Alagoas, inclusive um cara que não
entendia nada de futebol, mas tinha uma língua grande. Enorme! Bandeiroso.
Tinha um assessor chamado Bandeira, também! Começaram a desconfiar que o bonitão
também não entendia nada de futebol, e o pessoal que escreveu o novo
regulamento acabou jogando o galã pro escanteio. Assumiu um mineiro com um
topete engraçado, que era assistente do técnico bonitão. Entre outros, o
mineiro chamou um sujeito que tinha sido vendido para o futebol francês nos
anos 60, e voltara para o futebol brasileiro. Os europeus usavam muito o líbero,
e agora o neo-líbero. Veio com essas idéias pro Brasil. Primeiro o mineiro
usou esse jogador no meio-campo, até que armava boas jogadas. Falava bonito nas
entrevistas depois dos jogos. Eventualmente, passou para o ataque, e inventou lá
uma jogada de bandas, de fazer gols por dois lados, que ninguém entendeu
direito, mas que deu meio certo. Pelo menos achavam isso no exterior. Em suma,
acharam que o cara era um senhor atacante,
virou técnico e acabou batendo o técnico do meu time, o barbudo feioso
e de língua presa. Ficou oito anos de técnico!!! Por um
tempo parecia que o nosso futebol iria para frente, mas o povo estava cada vez
mais descontente. Havia ingressos, só que só davam para ver parte dos jogos (exceto
o pessoal dos camarotes, que ainda tinha ingressos para jogar pelo ladrão). E não
havia ingressos para todos. O povo tinha sede de gols, e achava que se pusessem lá
o barbudo do meu time, as coisas iriam melhorar. O barbudo era um homem do
povo como eu, Seu Zé. Finalmente,
meu time foi escolhido. Falam muito mal do meu time. Primeiro, falaram que o
barbudo ia trocar o uniforme de azul e amarelo para vermelho. Depois, dizem que
o técnico é cachaceiro, e que também não entende nada de futebol. Que não
se explica direito. Não me importo. Só o meu time que sabe jogar futebol, não
precisa nem de técnico. Tá certo que o barbudo chamou para o ataque um médico
(desde quando médicos sabem jogar futebol?) e até um atacante goiano que
ganhava milhões no futebol dos Estados Unidos, e resolvera vir para o Brasil
para ganhar em centésimo do que ganhava lá. Por que, não sei. Também chamou
para jogar um cara chato que furava a bola dos outros e jogava rojões nos jogos,
nos anos 60, que os técnicos gaúchos acabaram mandando para o futebol de Cuba,
e que, alguns dizem, é o verdadeiro técnico. Que sei eu, não sou muito
estudado. Mas só sei que o meu time só não marcou gols até agora por que os
outros concorrentes estão muito melhores. Só por isso. Se fosse nos anos 60,
na época do cearense sem pescoço, emplacaria uns 20 gols por jogo! Que fazer.
Foi azar. O meu time é o melhor, ponto final. Alguns
também querem comparar o futebol à política, principalmente, pela
parcialidade cega e apaixonada com que as pessoas abraçam os seus times,
continuando a torcer por eles mesmo quando sabem que não têm condições de
ganhar. Não concordo. O meu time é o melhor é pronto, e vou morrer torcendo
por ele – é um fato. Sou torcedor roxo. Não que nem o técnico bonitão,
nunca entendi o que ele quis dizer. Enfim, não se compara futebol à política.
Fim de jogo!
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