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CONHEÇA O MSMM

Por Carlos de Paula

 

O MST – Movimento dos Sem Terra, continua a fazer sucesso no Brasil, e calcado nele, apareceu o MSMM – o Movimento dos Sem Mídia de Massa. Quem seriam os estranhos componentes deste Movimento, que chegam a dezenas de milhões de pessoas Brasil afora?

 

Confesso que não sou especialista em novelas da Rede Globo, ou seja, espero não estar sendo injusto. As novelas da Rede Globo são um grande exemplo de inclusão e diversidade, verdadeiro retrato do Brasil. Lá vê-se de tudo:  empresários, bandidos, desempregados, cegos, mudos. Analfabetos, professores, intelectuais, alunos. Gays, lésbicas, abstêmios, negros, japoneses, ciganos, índios. Bebês, velhos, crianças, adultos e jovens. Carecas, cabeludos, gordos, magros, bonitas, feias. Cangaceiros, bispos e presidentes. Fumantes, beberrões e drogados. Astrólogos, umbandistas, espíritas. Até uma novela inteira sobre muçulmanos. Nem cheiro do MSMM.

 

As rádios tocam músicas de todos os tipos, algumas com letras escabrosas, palavrões, verdadeiras baixarias. Liberdade de pensamento!!! Falam de todas as facetas da vida nacional. De amor, futebol, feijoada, mulheres, políticos, poluição, educação, falta de educação, excesso de educação, pobreza, riqueza. Xingam, enaltecem, dizem palavras que ninguém sabe o que significam, exceto que são nagô. Outras oferecem uma veia mais espiritual, falando muito em Deus - outras não falam coisa com coisa. Muitas letras de música são verdadeiros trabalhos de proselitismo da nova era. As músicas dos MSMM, cujos CDs vendem centenas de milhares de cópias, nem sonham em tocar nas rádios normais – só nas próprias rádios MSMM.

 

Os jornais e revistas não são muito chegados ao MSMM também, por considerá-los deveras intolerantes, insistindo em impor a sua visão. De fato são os únicos que impõem sua visão de vida no Brasil: os politicamente corretos não o fazem, nem os intelectuais, nem tampouco adeptos da Nova Era, muito menos afiliados do PT, Marxistas, nem pensar. Ninguém, só os MSMM, esses intolerantes, impõem as suas convicções no Brasil!!!

 

A esta altura muitos já devem ter desconfiado que o MSMM e os evangélicos são a mesma coisa. Curiosamente, o censo brasileiro aponta que os evangélicos somariam entre 15 a 20% da população brasileira, entretanto, são sumariamente excluídos de referência social no mainstream. Uma massa de pelo menos 20 milhões, quem sabe, 35 milhões de pessoas. Não aparecem nas novelas, que, entretanto, exploram em detalhes a vida dos ciganos, uma minoria que provavelmente soma poucas dezenas de milhares no Brasil. Colunas de evangélicos são raras na mídia de massa, mas horóscopos adornam as páginas de milhares de publicações. Esquecem-se, quiçás oportunamente, que  horóscopos nada mais são do que uma religião pagã, milenar, escondida por um véu de pseudo-ciência: a astrologia. As músicas do MSMM, bem produzidas e bem feitas, não são tocadas nas rádios, por impor um padrão religioso. Entretanto, muitas emissoras de rádios executam milhares de canções que fazem verdadeiro proselitismo das religiões afro-brasileiras, escondidas por um véu de cultura!

 

Cabe aqui um parenteses curioso. Desde a Semana da Arte Moderna de 1922, existe uma corrente da inteligentsia brasileira que crê piamente que um trabalho artístico brasileiro, para ter validade, deve ser calcado na cultura brasileira. Nada de obras “universais”, sem gostinho brasileiro. Refutam qualquer coisa que se fundamente em culturas não nacionais. Com base em uma argumentação de jerico, considera-se aceitável a promoção das religiões afro-brasileiras, por serem “brasileiras”, portanto, “culturais”, ao mesmo tempo justificando-se a refutação dos evangélicos, devido a origem européia/norte-americana, assim inválida no contexto social brasileiro.

 

Acontece que de brasileiras, as religiões afro-brasileiras têm muito pouco. Basicamente o mesmo rito supostamente “brasileiro” é practicado em Cuba, no Haiti, e na própria África. São religiões africanas, tanto quanto os evangélicos professam uma religião importada. Portanto, sob o critério de brasilidade, as religiões afro-brasileiras deveriam ser excluídas da literatura, TV, revistas, músicas, etc etc, pela mesma razão que são excluídas as referências evangélicas.

 

Qualquer pessoa que já esteve em um culto evangélico no Brasil, e no exterior, vai notar que estes são diferentes. Desde a música, até a própria condução do culto e postura dos pastores. Segue-se, pela lógica, que os cultos evangélicos brasileiros, são tão brasileiros quanto os ritos de religiões importadas da África são brasileiros. Ou seja, o critério de “brasilidade” não serve nesse caso para justificar a exclusão.

 

Digamos, então, que a suposta intolerância dos MSMM seria a fundamentação da exclusão dos evangélicos de qualquer inclusão social na mídia de massa. A exclusão seria então, uma punição por mal comportamento social (!!!). Essa própria exclusão pode, e deve, ser interpretada, como um tipo de intolerância. Ou seja, os supostos tolerantes que mandam na mídia de massa, que não incluem os evangélicos no contexto social por os julgarem “intolerantes’, são tão intolerantes (ou mais ainda) quanto os evangélicos, por abusarem do seu óbvio poder massacrante.

 

Assim é que a exclusão dos MSMM da mídia não se explica razoavelmente, salvo por uma antipatia quase visceral e irracional por parte dos não-evangélicos. Numa era em que o politicamente correto impera em relação a quase todos os excluídos e minorias, infelizmente a filosofia não se aplica aos evangélicos, que preconceituosamente são taxados, com generalidade, ignorantes, atrasados, burros, tacanhos, medievais e outros tantos adjetivos pejorativos.

 

A pouca inclusão na “big mídia” é negativa. Notem que sempre que um evangélico comete um crime, acha-se uma forma de mencionar a religião do indivíduo. Entretanto, nunca se vê “fulano de tal, que é espírita ou  católico ou judeu ou umbandista, assassinou cobrador de ônibus”. Implicitamente, parecem querer dizer que ser evangélico é parte do crime. Pastores só são mencionados na “big mídia” quanto cometem algum deslize. Livros evangélicos nunca são discutidos na mídia de massa: por outro lado, livros de auto-ajuda, na realidade, muitos deles livros de nova era disfarçados, são fartamente abordados. Atrocidades psicológicas como a programação neuro-linguística, são promovidas como  espirituais – a espiritualidade evangélica é simplesmente ignorada. Shows de Marcelo Rossi merecem destaque, nunca dado a aglomerações evangélicas com público dez vezes superior. E assim por diante.

 

Não que os evangélicos façam questão de ser inseridos na “big mídia”. Muitos não assistem a rede Globo, não lêm Veja, não lêm jornais diários. Por que curiosamente essa exclusão causa uma reação nos evangélicos: quanto mais são excluídos da “big mídia”, mais se afastam dela e vão procurando sua própria praia. Assim acaba surgindo uma mídia exclusivamente evangélica. São as emissoras de rádios que só tocam músicas evangélicas, TVs, jornais, revistas, sites, etc. Ou seja, se o intento, ao excluir os evangélicos da vida nacional, é fingir que não existem, e assim esperar que desapareçam, aparentemente a estratégia não está dando certo. O tiro está saindo pela culatra.

 

Sob o ponto de vista intelectual, é desonesto da parte dos produtores culturais e “formadores de opinião” fingirem que não há evangélicos no Brasil. Numa época em que há leis que estabelecem até o número mínimo de atores negros nas produções culturais brasileiras, parece completamente descabido (e repito, desonesto) simplesmente fingir que os evangélicos não fazem parte do cenário nacional. Imaginem um antropólogo, daqui a 500 anos, examinando fitas de novelas da Rede Globo, cerca 2003. Chegará à conclusão de que uma vasta parcela da população brasileira pratica ritos afros, mas que não havia evangélicos no país – embora houvesse grande população muçulmana, cigana, etc..  

 

Sob o ponto de vista marqueteiro, sempre que um evangélico se afasta da “big mídia”, exclui-se mais um outro possível consumidor de leite em pó, lava-roupas e carros zero. Multiplique-se por milhões de consumidores, e de repente surge um problema vultoso, principalmente para a “big mídia” que depende de aumento de  audiência para aumentar seus preços de publicidade. Isto é problemático principalmente no Brasil, mercado altamente competitivo e dinâmico, onde historicamente as empresas têm se dedicado só às classes A e B, e agora vêm-se forçadas a expandir seus horizontes promocionais além das fatias mais “nobres” do mercado. A meu ver, seria mais interessante para a “big mídia” admitir, de uma vez por todas, que uma parte muito grande do público brasileiro é evangélico, adaptar-se, e para o seu próprio bem, inserir os evangélicos no “mainstream”. Antes que as coisas se polarizem de vez. Quem vai sair perdendo é a “big mídia.”  

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Last modified: October 15, 2007