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PALAVRAS CARREGADAS Por Carlos De Paula Visto que a Internet permite a cada um publicar suas idéias, sejam ou não inteligentes, brilhantes, exclusivas, interessantes ou relevantes, e antes de mais nada, não julgo que as minhas sejam, tenho o direito de escrever o que penso, contanto que não esteja violando nenhuma lei ou direito do próximo. Espero que o leitor se esvazie de toda e qualquer paixão e viés, e use meramente seu intelecto para analisar as linhas que se seguem. Pois bem. Quero falar sobre uma pequena palavrinha que é muito utilizada ultimamente. Vira e mexe, aparece na mídia, sempre carregada. A palavra é gene. Parece que hoje em dia tudo é genético. Sempre que um grupo ou indivíduo tem interesse em justificar posições com bases “científicas”, qualquer questão humana se torna genética. Da mesma forma como muitos alopatas culpam vírus desconhecidos por doenças que não conseguem diagnosticar e aquele médico do programa Chico City, dos anos 70, chamava todas as doenças “psicológicas”. Por que a questão é tão intrigante, importante e ontológica? A argumentação pseudo-científica é reminiscente dos freqüentemente auto-denominados formadores de opinião (FDO) da mídia. Muito se gabam de criar e moldar uma nova sociedade, através do seu trabalho artístico, pensamentos e estilo de vida. Entretanto, quando alguém os confronta, sugerindo que o aumento da violência no mundo é diretamente vinculado à violência de Hollywood e o problema das drogas é possivelmente atribuível, na essência, ao mau exemplo desta elite “cultural” na sua vida pessoal, os FDO se defendem, dizendo “Qual é, mané, Hollywood é ficção e minha vida é privada”. Eu também gostaria de só ficar com o lado positivo dos meus atos, mas não é bem assim que funciona o mundo, não é mesmo? Pois há um severo doubletalk similar nessa história do que chamo de genética de propensão. Voltando aos genes. Quando estes são responsabilizados por qualquer faceta da vida humana, a afirmação é extremamente carregada, por que a genética implica a idéia de inevitabilidade natural. Algum tempo atrás, “descobriram” um gene da criminalidade. Ou seja, algumas pessoas teriam esse gene, que faria com que tivessem grande propensão de se tornar criminosas. Um pouco antes, reinava a tese, especialmente entre sociólogos, que culpava a “sociedade” exclusivamente, pelo crime. Ambas as explicações são tendenciosas, e levam à óbvia eliminação da moral da estória - literalmente - e da responsabilidade individual. Se nasço com o gene da criminalidade, a sociedade deveria, em tese, me aceitar dessa forma, como aceita pessoas portadoras de genes de outras características, sejam físicas, comportamentais ou emocionais, agradáveis ou desagradáveis. Afinal, se nasço assim, não tenho culpa de assim ter nascido. Mas se a sociedade é culpada pela criminalidade, quem deve estar na cadeia é a sociedade, não o criminoso! (*)Ambas as propostas parecem se esquecer do seguinte: se a causa da criminalidade fosse essencialmente genética, certamente um número muito maior de pessoas de linhagens “criminosas” deveria seguir a delinqüência, o que não é o caso.(**) E se o problema fosse exclusivamente a sociedade (e a pobreza, falta de formação, etc), não haveria favelados honestos, e eles são a maioria. Em suma, ambas as opções parecem querer eximir os indivíduos de responsabilidade por seus atos, se não na prática, filosoficamente. Vamos para outro caso. O suposto gene da opção sexual. De novo, a afirmação é carregada com a idéia de inevitabilidade natural e é tendenciosa ao extremo. Notem a sutil nuance do nome: sugere que o gene afetaria a opção da pessoa, ou seja, os proponentes da tese usam a inevitabilidade quando convém (o gene), e a descartam ao deixar a questão, em última análise, no universo das opções individuais (a opção) ou seja, a nível de livre arbítrio escolha, de cujo território nunca deveria ter saído.(***) Houve uma óbvia tentativa politicamente correta de inevitabilizar o evitável! Estão inevitabilizando a opção! Com isso, remove-se toda e qualquer aplicação de princípios morais, habituais e éticos, quaisquer que sejam, pois então até mesmo as opções de vida (nesses dois casos, sexuais e criminosas, quantas outras?) seriam genéticas, e portanto, inevitáveis. A coisa se complica no campo da ética, pois existem não poucas pessoas, que acreditam que a genética deve ser livremente manipulada visando moldar uma futura humanidade mais “humana”. Sabe como é, eliminar as doenças, coisas desagradáveis (calvície, obesidade, tornar todas as crianças bonitas, acabar com as guerras...) Daí fica a pergunta. Quais são os traços genéticos desejáveis, e quais são indesejáveis? Qual é o direito do feio existir? É desejável um mundo de Gisele Bundchens e Bill Gates? Se um sujeito nasce com o gene da criminalidade, que o leva inevitavelmente a optar por um lifestyle criminoso, dever-se-ia fazer uma alteração genética no dito cujo para evitar a propagação do crime? Qual é a diferença entre isso e de castrá-lo? Não seriam opções, boas ou más, meras, puras e simples questões de volição? Qual o paradigma para escolher qual é o traço genético desejável, que deve ser mantido, e aquele que deve ser manipulado e extirpado? Se usarmos como paradigma de aceitação a biologia evolutiva, por exemplo temos um problema sério com o gene da opção sexual. Um dos temas centrais da teoria da evolução é que as espécies evoluem no sentido de superarem as outras espécies na competição biológica: ou seja, almejam a auto-preservação acima de tudo. Visto que a reprodução da espécie é uma condição sine qua non para a sua preservação, e a primeira é impossível entre pessoas do mesmo sexo, a opção sexual de pessoas do mesmo sexo deveria ser considerada uma “disfunção genética”, ou pelo menos, antinatural ou antievolutiva(****), e por lógica, traço indesejável sob a ótica da evolução. Por outro lado se usarmos como paradigma a pura e simples liberdade de ação, sem outras considerações éticas, a pessoa que nasceu com o gene da criminalidade teria o pleno direito de assim agir, que se dane o resto. E mais: se usássemos como paradigma-mor o anti-preconceito, deveríamos parar de enviar criminosos para a cadeia. O encarceramento de criminosos seria, sem dúvida, a maior atividade discriminatória da história da humanidade. Afinal de contas, se assim nasceram, os estamos discriminando, tadinhos! Deveríamos usar o prazer individual como padrão? Será que devemos nos tornar seres hedonistas ao extremo? Alguns podem argumentar que sexo é sexo, e é prazeroso, por isso, não se devem impor “regras” de conduta. Entretanto, consideremos a ótica de prazer puro e simples (sem considerar consensualidade). Diversos criminosos relatam ter prazer em cometer crimes, seja um simples latrocínio ou terrível homicídio seguido de antropofagia. O padrão de prazer como regra máxima de desejabilidade torna-se patentemente inadequado, pois, se usarmos a tal genética de propensão em combinação com este paradigma, teríamos então, que aceitar o criminoso, que estaria exercendo o seu “direito” ao prazer de degustar o objeto do seu crime. Se usarmos o relativismo cultural como paradigma, aí o bicho pega mesmo. Ainda não houve nenhuma “descoberta” do tipo, mas não vai demorar muito para alguém propor que existe também um gene da pedofilia. Não duvido disso. E aí podemos ter diversos problemas se aceitarmos o relativismo cultural como paradigma para aceitar alegadas inevitabilidades genéticas. Por exemplo, em diversos países a idade de consentimento legal com o ato sexual é doze anos. Em uma outra cultura, uma pequena tribo africana imersa em culto de fertilidade, os bebês do sexo masculino são compelidos a ingerir sêmem do pai, por que adultos crêem que isto lhes dará fertilidade. Ou seja, sob a ótica do relativismo cultural, uma pessoa poderia propor que tais práticas seriam, em tese, admissíveis em qualquer sociedade, se fossem apoiadas em uma propensão “genética” (de novo, uma suposta inevitabilidade natural da pedofilia) e ainda por cima existissem em outras culturas, como as mencionadas acima. (*****). Para aqueles que não entenderam, ou fingem não entender, esses dois atos seriam categorizados como pedofilia, na cultura e regimento jurídico brasileiros. Obviamente, todos os exemplos acima são extremos, em grande parte por que decisões do tipo não são tomadas com base em um ou dois paradigmas, mas diversos padrões ao mesmo tempo. Aí decide-se o que é um comportamento/traço normal ou anormal, com as falhas habituais do subjetivismo. E vai por aí adiante. Com isto quero dizer que propensões genéticas, ainda que detectadas, não podem servir de fundamentação para uma nova moral, sustentada em supostas bases científicas, humanísticas e modernistas, em conjunto com simplísticas considerações paradigmáticas. Por outro lado, é preciso muito cuidado com qualquer proposta de manipulação genética, pelo potencial e óbvio perigo da atividade. Remember Hitler! Na minha opinião, opções de vida são questões individuais, longe de ser determinadas por inevitabilidades naturais. Isto não faz delas todas aceitáveis, desejáveis ou toleráveis. A opção deve ser exercida com responsabilidade: a pessoa sempre deve assumir responsabilidade exclusiva pelos seus atos, em vez de esconder-se atrás de uma genética suspeita, da sociedade, do governo, da família, do destino, etc.. O ordenamento daquilo que é ou não desejável na sociedade deve seguir preceitos éticos, e estes, querendo ou não os mais modernos, são ontologicamente baseados em princípios morais, muitos dos quais considerados “antiquados”. Por trás das sugestões “genéticas” aparenta haver um desejo de eliminar a “velha moral”, reduzindo a “nova moral” a um conjunto de valores fundamentados em teses pseudo-científicas, considerações politicamente corretas e viés humanístico. Cuidado ao abraçar esta genética fru-fru. (*) Curiosamente é exatamente isso que acontece com os condomínios fechados Brasil afora. Estão presos os homens de bem, e soltos os bandidos.
(**) A contra argumentação pode ser o típico argumento circular. O gene indicaria meramente uma propensão à criminalidade, não garantindo que o seu portador acabasse criminoso. Se assim é, quem garante que o tal gene, é, de fato, indicador genético de criminalidade, e não de um outro traço não identificado? (***) Muitas pessoas mudam de opção sexual no curso da vida. Ou seja, a inevitabilidade estaria na opção, e não no exercício da mesma. Eis aqui o “doubletalk”. (****) Isto é lógica pura, não é uma declaração subjetiva nem tampouco discriminatória. Se todos os seres humanos optassem exclusivamente por uma opção sexual com pessoas do mesmo sexo, logicamente, o homem seria extinto da face da terra dentro de 120 anos. A opção seria a inseminação artificial em massa, mas estou falando de natureza, já que a argumentação por trás da genética de propensão é supostamente científica e natural. OUTRAS CRONICAS DE CARLOS DE PAULA CLIQUE AQUI |
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